segunda-feira, 28 de março de 2011

Minudências, o livro

Apresentação

Tenho acompanhado a literatura de Brasília há cerca de 14 anos e minha biblioteca possui uma prateleira só com livros de escritores daqui. Não por uma opção de prestigiá-los, tão somente. Mas para que eu pudesse, nesses anos todos, ter condições de elaborar uma opinião concreta sobre o que se faz no DF, em termos de letras. Não possuo na minha estante os melhores livros de Brasília. Na verdade, em sua maioria, são intragáveis. Sub-literatura, no seu sentido mais exato. São dezenas de pessoas que se arvoram a autodenominar-se poetas, pelo fato de juntar mil reais e mandar uma gráfica imprimir cem exemplares do que se ousa chamar de poesia. Brasília tem disso, sim. E dá dó, porque o efeito é desastroso. O leitor traumatiza-se e jamais apanhará um outro livro de escritor da cidade, sequer por curiosidade. São publicações sem qualquer critério ou bom senso. Esses escritores aos quais me refiro, quando muito, fazem da sua tiragem um formidável “banco de livro”: uma pilha de livros para sentarem-se as visitas.
Por isso, quando me deparo com pedra rara, solto fogos e mais fogos. E sei que os anjos lá no céu tocam trombetas. Seus textos, Jorge, estão muitos, mas muito mesmo, acima do nível dos poemas aos quais me referi. Bem a propósito da nossa época: curtos, rápidos e objetivos. Sem lengalenga e conversa fiada. São líricos, mas também bem humorados. Todos eles guardam boas surpresas no decorrer do texto e muitos delas reservam para o final, um despacho inesperado. Sem exagero, fiquei espantado. Não sou muito de costurar elogios aos poetas principiantes ou aos que ainda não publicaram, mas seu texto está maduro e consistente. Digno de vir a público. Sempre tive como critério maior para classificar meu gosto por um texto, seja ele em poema ou prosa, quando acabo a leitura digo a mim mesmo: “puxa, este texto eu gostaria de ter feito!” E assim são os seus poemas.

Simão de Miranda, 28 de março de 1997.


O CAVALEIRO E OS MOINHOS

VOCÊ É PURA,
E EU SOU O AVESSO DO AVESSO,
DA PURA LOUCURA.

VOCÊ É SÓLIDA
E EU SOU FLUÍDO
VESTIDO DE SOMBRAS
E ENIGMÁTICO SORRISO

VOCÊ É LOUCA?!















MINUDÊNCIAS

CONTEMPLANDO MINHA PELE NEGRA
PENSO, REFLITO, SUSPIRO
COM MINHAS VENTAS LARGAS
MEU PEITO ABERTO
MEUS BEIÇOS SALIENTES...

RISONHO,
VEJO O PASSADO PRESENTE E,
EM CÂMERA RÁPIDA, VELOZ,
MIRO O ALGOZ NO OLHO
COM UM SORRISO ENTREDENTES
ENQUANTO PREPARO O MOLHO
PARA REGAR AS SEMENTES.













RETRATO FALADO



MINHAS TRANÇAS
TRANSAM BEM COMIGO
ENTRELAÇAM-ME
TRAÇAM TEIAS
DECORANDO MEU COURO CABELUDO.

MAS MINHAS TRANÇAS,
EM MIM
NÃO É TUDO!!!
















EXISTÊNCIA


MEÇO O ESPAÇO
ENTRE O QUE PENSO E O QUE FAÇO
ENTRE O QUE DIGO E O QUE OUÇO
ENTRE A BORDA E O FUNDO DO POÇO.

MEÇO A ESTRADA
ENTRE A CHEGADA E A SAÍDA
ENTRE A MINHA E A TUA VIDA
ENTRE O VIVER E O SONHAR.

MEÇO O TEMPO
ENTRE O VI E O VER
ENTRE PASSADO E PRESENTE
ENTRE VIVI E VIVER.

ENTRE EU E VOCÊ
HÁ TODO UM MUNDO REPLETO
DE ABRAÇOS, NOITES, ESTRADAS
TRANÇANDO UMA PONTE DE AMORES
ENTRE O EXISTENTE E O NADA.







REVELAÇÃO


IMERSO EM MEU UMBIGO
NÃO VI
QUE A VIDA ESVAÍA-SE LENTAMENTE
COMO COCHILO EM VIAGEM DE TREM.

QUANDO DEI POR MIM,
A ÁGUA JÁ TINHA PASSADO
POR DEBAIXO DA PONTE!

















NOITE


A NAVALHA SOBRE MINHA PELE PRETA
EXPÕE MEU RUBRO SANGUE
GOTA-A-GOTA.

A VIDA, DIFÍCIL E ROTA,
AOS POUCOS CONSTRÓI UMA POÇA
DA MAIS PURA ILUSÃO...
OU NÃO?!

















MEDO


SE PARA TI ESCREVO
TODO DIA–A-DIA,
É QUE NO SEGUNDO SEGUINTE
A BOMBA,
POMBA DE TENEBROSAS PENAS,
PODE POUSAR NO PÔR-DO-SOL.
















PUZZLE

MINHA INTENÇÃO É DE VIDA
SABER DO OUTRO LADO
DA MARGEM DO RIO.

MINHA INTENÇÃO É NÃO TÊ-LA
E, INTENCIONALMENTE NÃO VÊ-LA,
PREOCUPANDO CABEÇAS COMUNS.

MINHA INTENÇÃO É “UMAS”
NÃO VÊS?!
ESTÁ CLARA EM MINHA RETINA
PARA QUEM TEM OLHOS PARA OUVI-LA.















FUTURO

PASSEI MAIS UM CAIS
DEIXEI PARA TRÁS
MAIS UM PORTO
LEVANDO EM MEU CORAÇÃO ROTO
LEMBRANÇAS IMPESSOAIS.

E LÁ VOU EU VELAS ABERTAS
NO PEITO BRILHOS DE SÓIS
OS PÉS DESCALÇOS, SALGADOS,
DEDOS DE DOMINÓS

LÁ VOU EU ROMPENDO ONDAS
PARA TRÁS SÓ DESERANÇA
LÁ VOU EU VELAS ABERTAS
AO CABO DA BOA ESPERANÇA.










DRUÍDA

DISSESTE QUE VIRIA
NO MEIO DE UM DIA
QUEM SABE, NA CARROCERIA
DE UM TANQUE DE GUERRA.

DISSESTES QUE ABRIRIA
DE NORTE A SUL A TERRA
RESSUSCITANDO O PASSADO
PASSADO ENTRE QUATRO PAREDES.

DISSESTE QUE UM DIA
(QUEM SABE HOJE!)
APARECERIAS QUAL AMAZONA ALADA...

NADA...
NEM MESMO UM RECADO
POR UM JORNAL NACIONAL!












CONFISSÃO


OLHANDO EM TEUS OLHOS
ME VI REFLETIDO,
FRAGMENTADO,
ME VI MAL-AMADO.
ME VI DISPONÍVEL..

OLHANDO-ME NO ESPELHO
ME VI REFLETIDO,
FRAGMENTADO.
ME VI MAL-AMADO...
ME VI DISPONÍVEL!













DELÍRIO, MEU!


UM DISCO
PASSOU
(VOADOR QUE ERA!).

VOLTOU,
OLHOU PARA MIM
PISCOU-ME UM OLHO
E POUSOU NUM FIO
DE ALTA TENSÃO.
















SOBRE O AMOR

SE AMAR NÃO SE ENSINA
SENTIMENTO MUITO MENOS
PAIXÃO, AMORES AMENOS
COISAS QUE NÃO SE DESTINA.

SE TEU SIM CONTÉM UM NÃO
SOFRIMENTO NÃO COMOVE
E SE A TERRA POR “SI MOVE”
É DO HOMEM A DESTRUIÇÃO.

NA VERDADE, SENTIMENTO
COMO AMOR NÃO SE ENSINA,
PELO MENOS NO MOMENTO!












POEMA EM PÓ.

APAGO TEU BRILHO
LADINA
COM UM ASSOAR
DE NARINA.



















TAPA NA CARA


(EU NUNCA TIVE HERÓIS)
NEM DEUSES
NEM LENNONS
NEM ARRIGOS
NEM CAETANOS.

(EU NUNCA TIVE DEUSAS)
NEM A VIRGEM
NEM MARIA
NEM VOCÊ

QUE ME LÊ...

EU NUNCA TE VI
SÓ EU!











POEMA KAFKIANO

MALDITOS TEMPOS
EM QUE TEMPLOS SÃO BOMBARDEADOS
E QUE A VIDA HUMANANIMAL
NADA VALE

MALDITOS TEMPOS
EM QUE A PAZ É AMALDIÇOADA
E A REALIDADE DA GUERRA CRUEL
É COMPANHEIRA DE QUARTO E SALA.

MALDITOS TEMPOS
EM QUE SOMOS ESCRAVIZADOS.

MALDITOS TEMPOS
EM QUE TEMOS QUE AMALDIÇOAR OS TEMPOS.











SANGUE AFRICANO


MEU SANGUE NEGRO
VICEJA EM MINHA PELE MORENA
LATEGADA
FUSTIGADA
SANGRANTE.

TRANSPARECE EM MINHA EPIDERME
MEU SANGUE AFROBRASILEIRO
VERMELHO
VERDE
AZUL
AMARELO
E PRETO.

BRILHA EM MIM
A ÁFRICA ANCESTRAL
PARA O BEM E PARA O MAL.






PRECISÃO


PRECISO TORNAR-ME
CÉTICO, CÍNICO, CLÍNICO
BOTAR
MINHA BARBA DE MOLHO
FECHAR O OLHO
PARA QUEM NÃO ME VÊ.

PRECISO FICAR
AUTOCONFIANTE
FOCADO
CENTRADO
À BEIRA DO CAMINHO
CURTINDO
A CARA VELA QUEIMAR.

EM VERDADE, NA VERDADE,
PRECISO DE SIZO
DE SORRISOS
A ME NINAR.






ÀFRICA


NEGRO TÁ NA MODA
TÁ NA MIRA
NAS COTAS
NA COZINHA
NOS CRUZAMENTOS

NEGRO TÀ AQUI
TRAFICADO DE LÁ

E TU, NEGRO,
ONDE ESTÁ?!















ANCESTRALIDADE


HOJE ESTOU FELIZ
COMO UM MENINO AFRICANO,
CORRENDO PELAS SAVANAS,
PELAS ESTEPES...

HOJE,
MINHA ALMA NEGRA BRILHA
COMO O IMPÉRIO DE MALI,
COMO SONGHAI

HOJE,
CABEÇA ERGUIDA,
TRILHOS OS CAMINHOS
DE MEUS ANCESTRAIS.










ALTO RETRATO


SOU HOMEM DE MEU TEMPO,
DE MEUS INVENTOS,
FRUTO DE MEU OLHAR.

SER HUMANO EM CONSTRUÇÃO
SOFRO INFLUÊNCIAS DIVERSAS.

DISPERSO, DIVIDIDO, FRÁGIL,
SOU PRESA FÁCIL DO PORVIR.

MAS SOU SER QUE SENTE
E QUE VERSA.

HOMEM DE INTENTOS,
INVENTO CAMINHOS
TENTO CAMINHARES.

POETA,
BUSCO NOVOS ARES.






AUTO POEMA


EU
E MEUS VERSOS,
MEUS PAPÉIS DISPERSOS,
IDÉIAS EMPÍRICAS.

EU E MINHA PICA,
MEU TESÃO, DESEJOS,
DERROTAS, ROTAS, TRILHAS.

EU E MEUS TRILHOS,
MEUS BRILHOS,
BASEADOS,
SECOS E MOLHADOS

EM VERDADE
EU E MEUS SUCESSOS
EU E MEUS FRACASSOS.






ALTO RETRATO DOIS


ALEM DE DIALÉTICO,
SOU DISLÉXICO,
APOPLÉTICO,
MUITAS VEZES ORTODOXO
NOUTRAS MODERNISTA.
(À PROPÓSITO, SOU MEIO DESLIGADO,
FOCADO
EM TEMAS PUERIS!)

QUASE ARTISTA
PROFESSO PRETENSAS VERDADES.
COMETO VERSOS,
PENSO QUE PENSO,
TENTO, SUSPENSO,
MANTER-ME COESO.

ACESO, TESO, TENSO,
DESEJO SER POETA.

E RIO
DE MEU BOM SENSO!





IMAGEM


VALHO O QUE PAREÇO,
O QUE POSSUO,
O QUE POSSO
PAGAR,
O LUGAR,
O SETOR,
O ESTADO,
O QUE REFLITO,
COMO ME DECORO,
QUAL MEU LEIAUTE,
QUAL A MARCA,
QUAL A CÉDULA,
A QUE CÉLULA
SECULAR PERTENÇO.

MAS,
VALHO
O QUE PENSO?





CAMINHOS


QUASE INVISÍVEL
PRESENTE EM EXCESSO
APENAS PASSO.

GUERREIRO TÁTICO,
PARANÓICO,
DESTRONADO,
BEIRO O DESESPERO
BAILANDO
ENTRE PRÍNCIPE
E SAPO.
















MUNDO


DEUS
NÃO DÁ ASA A COBRA...
SORTE!
SOU LEÃO
SOU CÃO,
SOU JOSÉ.

E DEUS,
SE QUISER,
NÃO VAI SE METER
NESTA HISTÓRIA!













DEFINIÇÃO


SIGO ESTRELAS,
APOSTO EM SONHOS.
SOU SOUL!

MEU ROCK É ROOTS,
MEU SAMBA É MUTANTE,
MEU RAP É CIDADÃO.

MEU BLUES, MEU JAZZ, MEU CHORINHO,
SOAM BAIÃO!
















CONVEXIDADE


NÃO TENTE ME ENQUADRAR
POIS TEU SONHAR É REDUZIDO
LIMITADO DE LADO A LADO
POR ARQUÉTIPOS VENCIDOS

NEM TENTE ANALISAR
O QUE JÁ SAI TRADUZIDO
ARTICULADO EM SONS
COM FORTES TONS DE DORMIDO.

COMO ME QUALIFICAR
SE VOCÊ PRECISA DE ESPELHO
PARA ENXERGAR TEUS DOIS OLHOS
E SABER DE TEU CORPO INTERNO?











BRASIL


NÃO É QUE EU FAÇA
QUESTÃO DE SER FELIZ

SÓ QUERIA QUE PARASSEM
DE MORRER DE FOME DE LETRAS
A UM PALMO
DE MEU NARIZ.



(Não confie em ninguém com mais de 30 poemas)












PRONTUÁRIO DO COMETEDOR DOS VERSOS.


José Jorge, vulgo nego Jorge ghezo, vulgo baiano, vulgo negão, vulgo professor... dito e desdito, construído e construindo, mas quase sempre, inventado.
Nascido no recôncavo baiano, na cidade de Castro Alves, na Bahia, cidade que já doou pro Brasil, guerrilheira do tempo de Dilma.
É, agora, calango criado, tostado, formado e deformado pelo sertão goiano-brasiliense.
Negro quase preto, é traficante de idéias e homizia-se na Cidade do Gama onde “A Casa é Grande, a Ponte é Alta,a Porta é Aberta e a Cidadania, escancarada!”.


Contato: negojorgeghezo@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário